Viagem de Ônibus

17:02




Uma viagem de ônibus é exatamente o que deveria ser. Ela te leva de um ponto a outro, normalmente pontos distantes, afinal, por qual outro motivo você se submeteria a longas horas sentados, certo?


Ok, você poderia pegar um avião e economizar longas horas de estrada, mas não teria a mesma graça. Eu, particularmente, como você pode ter notado, sou bastante fã de viagens de ônibus. Elas causam dor na coluna, leve tédio e deixam seu celular 90% do tempo sem sinal, mas elas são ótimas desculpas para ler livros inteiros, escutar música por horas seguidas e comprar guloseimas à beira da estrada. E, se você não for muito tímido, claro, conhecer gente nova.



Aqui estou eu, de pé numa rodoviária na qual estou pisando pela primeira vez, esperando minha carona, que estranhamente veio por meio de um aplicativo no celular. Mas não é essa a história que quero contar; esperar em rodoviárias é a parte chata das viagens de ônibus.



Era quase noite quando, na minha cidade natal peguei um ônibus com destino a outro estado. Entrei, encontrei meu lugar, deixei a mochila e fui até o fundo do veículo pegar um copo de água, rotina. Quando me sentei novamente percebi que uma moça havia se sentado no banco do lado contrário no corredor que eu estava.



Ela era bem bonita, loira, baixinha e com uma mochila enorme - bem parecida com a minha. Eu quis sorrir na hora, sorrir para mim e para ela. Mas me controlei e me sentei ao lado da minha mochila enorme. Por sorte, ninguém se sentou ao meu lado ou ao lado dela.



A viagem corria muito bem e cada movimento que a moça fazia eu conseguia perceber pelo canto do olho. Não que eu estivesse atentamente prestando atenção a cada detalhe, mas eu não aguentava mais ler outra palavra exibida no ereader em meu colo. Meus olhos estavam embaçando e as palavras se misturavam na tela.



Em um determinado momento da noite, seria próximo da meia noite? Me levantei para ir ao banheiro, pois eu e você sabemos que chamar a privada do ônibus de toilette é um pouco demais.



Às sacudidelas e chacoalhões eu consegui fazer xixi. Quando abri a porta, quase a bati em alguém, era a moça ao meu lado. Quer dizer, no momento ela estava à minha frente, mas nossos bancos eram paralelos. Ah, não importa.



Eu sorri, em constrangimento. Quero dizer, não dá pra achar alguém bonito e depois acertar a pessoa com uma porta, certo? Mas ela sorria honesta e abertamente.



- Ops! - Me obriguei a dizer - Foi sem querer.



- Tudo bem - ela riu - de verdade.



Eu sorri e saí do caminho. Quando passei por ela, nossos corpos se encontraram levemente. Senti um arrepiozinho prazeroso.



Depois desse encontro eu dormi, por quase três horas. Quando acordei vi que minha desconhecida de viagem dormia também. Me mexi e peguei meu celular para ouvir música. Quase uma hora se passou antes de ela acordar, de novo, não que eu estivesse atentamente observando, mas é que ela acendeu a luz do assento dela.



Ela então começou a mexer em sua mochila e tirou um tomo enorme lá de dentro. Fiquei imaginando qual seria o título, um livro daquele tamanho não era para qualquer um. Nesse momento ela percebeu que eu estava olhando. Eu dei um sorrisinho. Ela sorriu e segurou o livro:



- É um bom passatempo, não é?



Assenti e peguei o ereader na mochila e o mostrei:



- Da melhor qualidade.



Ela assentiu, guardou o livro na mochila e apagou a luz do banco.



O que realmente estava acontecendo?



Fiquei numa vigília inconstante, acordava e cochilava com a mesma velocidade de cada bacada que o ônibus dava. Logo antes que eu pudesse me impressionar com o fato, o sol estava nascendo. Porém, o que foi impressionante de verdade, é que a moça se sentou ao meu lado.



- O nascer do sol é incrível, não é?



Eu assenti apressadamente. Lindo da cor dos cabelos dela. Que não eram avermelhados como os raios nascentes, mas eram dourados como o sol que viria quente a seguir.



Ficamos em silêncio durante alguns instantes, até eu não aguentar mais a expectativa.



- Será um dia quente - e suspirei, essa era a melhor coisa que eu conseguira dizer, patético.



Por sorte ela interpretou o suspiro de outra forma: - Eu também não gosto de dias quentes. Prefiro os dias frios com uma coberta e um café.



- Eu dispenso o café, mas adoro a sensação de tomar um banho quente e me enrolar embaixo das cobertas enquanto assisto um filme, em dias frios - ponderei - melhor ainda se estiver chovendo.



E para meu completo desapontamento, o motorista parou o ônibus e gritou o nome da minha parada. Sorri, me sentindo meio triste, logo agora que a gente tinha engatado uma conversa.



- Bem, - suspirei novamente, ela ia achar que eu era a pessoa mais desolada no mundo - é aqui que eu me despeço.



Ela assentiu (tristemente, talvez?) e me deu um último sorriso:



- Foi um prazer conhecer você. A gente se vê por aí.



Eu sorri também:



- É um mundo meio grande, mas também gostei de conhecer você. - ok, eu não estava me ajudando, acrescentei - A gente se vê.



Peguei minha mochila que agora parecia pesar muito mais do que pesava e desci do ônibus. Antes do veículo sair, porém, vi que a moça estava sentada onde eu estava antes e dali me acenava. Sorri e acenei, até perdê-la de vista.



E agora estou aqui. Minha carona chegou. O amor de ônibus acabou. Minha vida que segue. Minha memória que se enche de lembranças e imagens que não são reais, mas poderiam ter sido.










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