Conto de Natal

15:00



Ok, perfeito. Eu estava presa na sacada. Pelo menos o tempo não está insuportavelmente quente, de forma que o ar condicionado não vai fazer tanta falta. Mas é Natal, porra. Eu comprei a merda de um vestido vermelho e um chapeuzinho fofo de Papai Noel para estar aqui.

Não que alguém tenha me obrigado, mas é o clima natalino. Certo? Talvez. Eu preciso me acalmar. O que aconteceu comigo? Quando criança e até no início da vida adulta o Natal sempre foi minha festa favorita, não pela festa em si, mas pelo ar.

Próximo ao Natal o ar muda. Se você nunca sentiu, é porque nunca parou para reparar. As pessoas ficam mais leves, assim como você. Dá vontade de decorar a casa, fazer comidas maravilhosas e presentear as pessoas. Eu amo presentear as pessoas. Adoro passar horas escolhendo o presente certo. O que eu fiz para merecer isso?

Meu primeiro ano e meu primeiro Natal fora de casa e agora estou trancada na sacada de um apartamento de pessoas que não conheço enquanto minha amiga está bêbada e tentando beijar a menina por quem está apaixonada. Tomara que dê certo, mas tomara que ela sinta minha falta.

Ouço a porta da sacada abrir e me viro rapidamente. Passei a última meia hora olhando para a rua, lá embaixo.

- Hey - grito - Não fec...

Click. 

A porta foi fechada. Ótimo, agora somos duas pessoas trancadas para fora. Pelo menos terei companhia, já que estou sem celular. Ninguém anda muito preocupado em colocar bolsos em vestidos.

Eu olho para o desavisado que ia passar o Natal comigo. É um homem, da minha idade, eu já o vi antes. Não foi ele que…?

- Ah, merda. - sussurro e volto a olhar a rua.

- Oi. O que você está fazendo aqui fora? - ele pergunta, bêbado.

- O mesmo que você, caro amigo. Estou presa aqui, sem celular e sem saída.

- Isso parece triste. Você não vai pular, não é?

- Não. Eu pretendo ligar para meus pais à meia noite, para desejar feliz Natal. 

- Bom saber - ele vai para o meu lado - O que você disse é verdade? A gente ‘tá preso?

- Veja por você mesmo.

Ele deixa a garrafa de cidra que tinha nas mãos ao meu lado e começa a mexer na porta.

- Merda, merda, merda. - escuto ele dizer

- Pois é, estamos aqui. Cadê seu celular? Liga para alguém lá dentro e pede para abrirem. Estou sem o meu.

- Eu também. Estava indo atrás de um amigo para pegar meu celular. - ele anda até mim e pega a garrafa de bebida - Pelo menos temos álcool! - e sorri.

Eu faço que não, com a cabeça. Ele dá de ombros e se senta no chão, próximo à porta.

- Então, qual é a sua história?

- A minha? Eu me senti sozinha lá dentro e decidi tomar um ar. Não sabia que era a porta para uma armadilha.

- Mas é Natal, você não deveria se sentir sozinha. Quer conversar sobre alguma coisa?

- Eu acho que de todas as pessoas, você é com quem eu menos gostaria de falar.

Ele bebe um gole da garrafa e suspira.

- Qual é a sua comigo, moça?

Decido ser honesta, afinal, já estou presa com ele mesmo. Conversar ajuda a matar o tédio.

- Você teve uma conversa com uma amiga minha uma vez e bem, foi desastroso. Virou o nível que medimos quão ruins são os caras que conhecemos.

- Uma conversa? No bar, na boate…?

- Tinder. - eu digo tirando as garrafas das mãos dele e bebendo um gole - Mas talvez você deva procurar algum tratamento para alcoolismo, já que você só lembrou desses lugares.

Ele ri.

- Eu acho que eu sei do que você está falando… Desculpe, qual seu nome?

- Amanda.

- Eu sou o Pedro, Amanda.

- Eu sei, - eu sorrio - também conhecido como o pior perfil do Tinder que já existiu.

- É, eu não estava no meu melhor, naquela época. - ele bebe um gole da garrafa - Tinha terminado com minha ex há pouco tempo.

Ele olha para mim, sorrindo. E que sorriso.

- Foi em um sábado à noite, não é? Que eu conversei com sua amiga?

- Isso.

- Bom, então ela não conversou só comigo. - ele bebe - Ela conversou comigo e com outros dois amigos, bêbados. Naquele dia, havíamos bebido a tarde toda e decidimos pedir um delivery. Enquanto esperávamos começamos a conversar sobre como mulheres não nos tratam bem.

- Eu viro os olhos, com nojinho desse tipo de pensamento. Ele vê.

- Ridículos, não é? Eu sei. Mas na hora, éramos as maiores vítimas da sociedade. Tínhamos certeza que todas as mulheres do mundo estavam unidas com um propósito: fazer com que nos sentíssemos um lixo.

- Claro, - eu digo - sei bem como é. Os caras bacanas que são injustiçados, não recebem a atenção que merecem.

- Exatamente! E nós decidimos criar um perfil no Tinder para cada um. Sendo exatamente o tipo de cara que nós achávamos que atrairiam mais mulheres. E a cada intervalo de tempo, meia hora acho, trocaríamos de celular. E é por isso, Amanda, que agora você me considera um pedaço de mau-caráter.

Eu me engasgo com a bebida e começo a rir. Muito.

- Bom, agora eu me sinto menos culpada - confesso - Naquele dia nós fizemos quase a mesma coisa que você e seus amigos. Eu e minha amiga estávamos em uma festa, entediadas. Tínhamos combinado de encontrar com dois caras e eles eram babacas completos. Ela então teve a ideia de fazer um perfil falso no Tinder. Pegamos fotos na internet e criamos nossa garota. Passamos o resto da noite conversando com caras aleatórios e morrendo de rir, discretamente, enquanto os dois com quem estávamos não entendiam nada.

- Ele se juntou à minha risada e eu me senti menos mal por estar trancada em uma sacada na noite de Natal com um gorrinho na cabeça. Ele se vira para mim e me olha.

- Você é legal.

- Até que você não é tão ruim, Pedro.

- Em nome de todos os homens do mundo, eu peço desculpas.

- Eu não. Nós mulheres merecemos um pouquinho dessa diversão.

Ele finge ponderar o que estou dizendo e concorda, rindo.

- Você tem razão.

De repente, o relógio no pulso dele apita. 

- Olha, já são meia noite.

Eu sorrio.

- É, parece que a ligação para meus pais vai atrasar.

Nós dois sorrimos. O clima surge. Ele me beija. Eu o afasto.

- Beijos à meia noite são apenas para o Ano Novo.

Ele coloca a mão na minha nuca e se aproxima mais de mim.

- Eu nunca liguei para tradições mesmo.


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p.s.: peço perdão por ter usado um gif de cachorro sem ter cachorros na história. mas ao mesmo tempo, de nada, por um gif tão lindo ♥

feliz natal a todos e que 2018 seja incrível!

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